English English Português Português

“O que é essa tal de bioenergia?” Parte 2 : Bioenergia e Ciência – Uma Dupla Irreconciliável?

Bioenergia

“Energia” é uma palavra antiga, com raízes etimológicas gregas.  “Energeia”, do grego, é uma palavra de difícil tradução, mas que remete à ideia de estar “em trabalho, no ato de trabalhar”.  É um termo que ganha reconhecimento na filosofia de Aristóteles, que dá base ao desenvolvimento da ciência ocidental.  Foi o físico inglês Thomas Young, que na virada do século XVIII-XIX, inaugura o termo dentro da física, e já em meados do século XIX, por um grupo de físicos europeus, é desenvolvido o que viria ser conhecido como a “lei de conservação de energia,” com o famoso princípio: “a energia não pode ser criada ou destruída; só pode ser transformado de uma forma para outra.” Ademais, numa consulta à versão online da Enciclopédia Britannica temos a seguinte definição de energia:

“Energia, na física, é a capacidade de realizar um trabalho ou ação. Pode existir empotencial, cinético, térmico, elétrico, químico, nuclear ou outras formas diversas…    Depois de transferida, a energia é sempre designada de acordo com sua natureza.”

É na chegada do século XX que Albert Einstein estabelece a equivalência geral de energia e massa com sua teoria da relatividade. A partir daí, o conceito de “energia” foi generalizado na forma usada hoje, utilizado na fala cotidiana das mais diversas formas e apropriado para além do campo da física.

Como vimos, o desenvolvimento de energia no campo da psicoterapia se deu de forma diferente, baseado em teorias e inferências, ou seja, de deduções tiradas de observações diretas, como o próprio Freud fazia na medida em que sistematizava sua teoria.  Esta sempre foi uma das grandes questões no desenvolvimento de pesquisas no campo da psicoterapia de base analitica, como a Análise Bioenergética.

O próprio uso de energia por Lowen, fundador da bioenergética, nos dá um exemplo desse uso do termo vindo da observação e da inferência, sem grandes preocupações com validação científica.  Ele popularizou no meio da Análise Bioenergética expressões e ideias como “energia bloqueada”, “permitir a energia fluir”, “sustentar a energia”, que seriam observações e experiências claras para quem participava de seus workshops e vivências, porém para qualquer pessoa vendo de fora muito provavelmente não devia fazer qualquer sentido, como para muitos não o faz até hoje.  A falta de uma explicação clara desta energia tão presente do trabalho bioenergético é um empecilho e dificuldade de comunicar os benefícios e ganhos desse trabalho, especialmente para aqueles que não tiveram a oportunidade de vivenciar diretamente estes processos, que dificilmente podem ser replicados em laboratório com dados quantitativos, por exemplo. 

Ainda assim, é possível e desejável fazer paralelos com certos campos científicos, como a bioquímica e a neurobiologia, que trazem explicações sobre a energia do corpo humano.  Se você lembrar um pouquinho das aulas de biologia na escola (leitores biólogos de plantão não precisam ir tão longe), talvez você se lembre da sigla ATP (trifosfato de adenosina), a unidade  molecular responsável pela liberação de energia no organismo.  É a energia disponibilizada pelo metabolismo.  Nosso metabolismo é estimulado por vários fatores, inclusive por aqueles que fazem parte do trabalho bioenergético, como a respiração e o movimento.  Lowen trabalhava a ideia de “energia através do exercício” para explicar como o movimento expressivo e expansivo do aspecto corporal do trabalho bioenergético gera uma “elação”, maior vitalidade, senso de presença e potência.  Novamente, para aqueles que passavam por estas experiências não restavam dúvidas da sensação positiva que trazia à tona, mas esse dado por si só não ajuda em nada para a compreensão de quem acompanha de fora, especialmente dentro dos rigores científicos.  Para acrescentar: em termos do conceito de energia da física, é uma constatação completamente absurda, pois movimento utiliza energia, e não gera energia.    E agora? Vamos lá: uma releitura desta ideia de Lowen nos aproxima da constatação dos benefícios do exercício físico como fator ansiolítico e antidepressivo natural através da liberação de endorfinas, além de uma possível contribuição na sensação de clareza mental por conta de uma maior oxigenação do cérebro.  Seriam formas de explicar esta maior sensação de “presença” e vitalidade comumente expressa em trabalhos bioenergéticos, que Lowen expressava como “mais energia”.  Mas bastaria isso para explicar a complexidade do processo energético na terapia?

Apesar desta compreensão metabólica ser importante, a bioenergética envolve mais que isso, pois busca compreender e trabalhar a dinâmica energética de pessoas em interação, dentro de uma relação terapêutica.  Mais uma vez, é uma compreensão que é fácil de ser compreendida para quem vivencia este tipo de trabalho, mas que pode ser difícil de ser expressa para quem não está familiarizado.  Ainda assim, é muito simples.  Vivemos essas interações o tempo todo, em nossas relações no mundo e com outras pessoas, apesar de não nos darmos conta.  Por vivermos numa sociedade e cultura altamente mental e tecnológica, perdemos o contato com a comunicação inconsciente que acontece entre corpos, que se torna a ferramenta básica do psicoterapeuta corporal.  Não estou falando simplesmente de “linguagem corporal”, e sim na forma que nós inconscientemente espelhamos, nos sintonizamos e ressonamos uns com os outros. É através da sensibilidade sutil de nossos corpos que assimilamos sensações e impressões das experiências internas à partir dos estados corporais daqueles com quem interagimos.  Estas impressões que podem ser descritas como tendo uma qualidade energética

Em seu devido momento, podemos explorar como diferentes segmentos da neurociência contemporânea contribuem na explicação desta comunicação sutil entre corpos, mas vamos seguir este trabalho elaborando como o que vimos até aqui sobre energia influencia diretamente no trabalho do consultório bioenergético.  Isso nos leva para a próxima parte deste trabalho, onde buscamos entender como funcionam estas trocas energéticas na clínica.

Share on facebook
Facebook
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email

Deixe um comentário